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   > A uma amiga



Vicência Jaguaribe
      CRôNICAS

A uma amiga

          Fortaleza, 16 de maio de 2010.  

          Prezada amiga,              

          Escrevo-te do meu gabinete, ao sabor da brisa que entra pela janela e do vento liberado pelo ventilador. Ao som das bombas que festejam um lance bem sucedido de um jogador de futebol, em um jogo que não sei qual é. De uma ou outra buzina de carro perdida na movimentada avenida, que hoje tem um pouco de paz. É uma tarde de domingo, quase noite. Aquele momento extremo da semana, quando os corpos se recolhem a casa, em busca de repouso, porque sabem que, logo mais, será mais uma segunda-feira. É mais uma vez uma tarde-noite de domingo, e eu não sei o que fazer com ela.

            O que há com as tardes-noites de domingo? Ou melhor: o que acontece comigo nas tardes-noites de domingo? O que fazer das tardes-noites de domingo? É aquele momento que fica entre o querer e o não-querer. Entre o fazer e o não-fazer. Entre o desejo e o desinteresse. Entre as lembranças e o esquecimento. É o momento em que se cai, literalmente, no limbo. É o instante da indefinição, da incerteza, da indecisão.           

          Daqui a pouco, quando já for noite fechada, ouvir-se-á no televisor do vizinho a voz do Faustão e o som do Fantástico, que desatam o frágil nó da esperança de que algo aconteça para salvar o fim da noite. Que fazer, meu Deus, com a sensação de desgosto e de enjoo quase físico provocada pelas pegadinhas, pela dança dos famosos, pelos quadros do Show da Vida, que não se enquadram na minha vida das tardes-noites de domingo?

            Amiga, as tardes-noites de domingo são o coroamento sem pompa e circunstância das expectativas dos sete dias da semana. Durante os sete dias, as decepções, os desgostos, as dificuldades e as dores foram empurradas para as vinte e quatro horas seguintes, depois para as seguintes e para as seguintes, e mais uma vez para as seguintes, até que chegou o momento em que não se tem mais para onde empurrar. Não aconteceu. Não se fez. Não se encontrou. Não se compensou. E o outro dia é a segunda-feira, quando começará tudo de novo, para chegar tudo ao mesmo ponto.

           Nada que se fizer nas tardes-noites de domingo preencherá o vazio que se instala. Já se tentou ver um filme? Arrumar uma gaveta (sempre há uma gaveta para arrumar – ouvi isso recentemente na novela das sete)? Preparar a aula da segunda de manhã? Ouvir Chico Buarque ou Marisa Monte? Pior, porque se correrá o risco de se ver espalhada pela casa – feito as contas de um colar que se soltaram e que não mais se consegue juntar e guardar dentro de uma caixa fechada – a dor sentida e ressentida daqueles versos belos e terríveis. É só escolher: estes 

           Do lado de lá tanta aventura
           E eu a espreitar na noite escura
           A dedilhar essa modinha
           A felicidade
           Morava tão vizinha
           Que, de tolo
           Até pensei que fosse minha

          ou estes 

          Se ela me deixou a dor,
          É minha só, não é de mais ninguém
          Aos outros eu devolvo a dó
          Eu tenho a minha dor
          Se ela preferiu ficar sozinha,
          Ou já tem um outro bem
          Se ela me deixou,
          A dor é minha,
          A dor é de quem tem...
             

           Bem, felizmente, a tarde-noite de domingo não dura para sempre, minha amiga, não é eterna. Ela tem um limite, graças a Deus! E isto é um consolo, até que a gente se lembra de que de hoje a sete dias haverá uma outra tarde-noite de domingo.                       

           Fica com Deus nesta tarde-noite de domingo e em todas as outras que virão. 

           Da amiga... 



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