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   > De olhos vendados



Vicência Jaguaribe
      CONTOS

De olhos vendados

               Era noite. O marido, gemendo as suas dores. Ela fez o que sempre costumava fazer: deu-lhe o remédio, aplicou-lhe compressas, preparou-lhe um chá e esperou, sentada na cadeira de balanço, que ele se acalmasse. Encostada no espaldar da cadeira, cerrou os olhos. Como a sua vida se entrelaçava com a dele. Por mais que procurasse na memória, só se lembrava de momentos importantes após o casamento.            

               Casara muito nova. Ele fora, praticamente, seu único namorado. Ela era do tipo mingnon, tinha a pele e os cabelos claros. Ele era alto e magro, de feições angulosas. E puxava por uma perna, um pouco mais curta do que a outra. Herança de família. Tiveram cinco filhos, àquela altura, já crescidos, alguns casados.            Ele era rude. De uma rudeza de nascença, que nada tinha a ver com maldade ou com grosseria intencional. Por isso ela sempre fora paciente com o seu temperamento. E também com as suas aventuras. Aparentemente submissa, na verdade, era ela quem, discretamente, dava a última palavra. Davi e Golias, enfrentando-se diariamente. Quanto às aventuras amorosas, ela só se preocupara nos primeiros tempos. Depois, quando a rotina transformou o casamento em um arranjo conveniente às duas famílias, ela deixou de apoquentá-lo por pular o muro sistematicamente. Já não lhe tinha amor. E, como ele não montava casa, nem desfilava com elas pelas ruas da cidade, para afrontá-la, tanto se lhe dava.            Há muito – logo depois do nascimento da filha mais nova –, não tinham mais vida conjugal. Ela sentia-se uma velha, e vestia-se e penteava-se como uma velha. Ele, apesar das doenças de que se queixava, andava bem pronto e cheiroso e, às vezes, comportava-se como um adolescente. Passaram a dormir em quartos separados, e ele só a chamava à noite quando precisava tomar um remédio, ou usar uma compressa.           

             Um ressonar mais forte do marido, acompanhado do ronco característico, resgatou-a das lembranças. Levantou-se, cobriu-o, desviou o ventilador e recolheu os utensílios de cozinha que levara para o quarto. Parou um pouco ao pé da cama e olhou-o. O quarto estava parcamente iluminado por um farol, de modo que não lhe foi possível ver-lhe as feições. Mas precisava? Ela as tinha guardadas na retina. E, se não lhe bastasse ter seus traços na memória, tinha os filhos, que todos eram muito parecidos com ele e com a família dele. Até aqueles olhos azuis, que nenhum dos filhos herdara, acabara aparecendo em um dos netos. Ele mexeu-se, mas não acordou. Daquele sono só despertaria lá pelas cinco horas, para supervisionar o trabalho dos padeiros. Ela sentiu um aperto no peito. Parecia que estava se despedindo dele, que não o veria mais. Besteira! As doenças de que ele se queixava eram mais impressão. Pela manhã, se alguém o chamasse para uma viagem a Russas ou a Moçoró, para farrear, ele estaria pronto. Desapareceriam todas as dores, todos os achaques. Vá pros infernos! Saiu do quarto e encostou a porta.            Levou os utensílios do chá para a cozinha. Não sentia sono. Aproximou-se da pia e passou a lavar a louça suja que os últimos a deitar-se haviam usado. Ela não conseguia dormir deixando a sua cozinha suja. Era maníaca por limpeza. Essa sua mania gerara muitas discussões com o marido, no início da vida em comum. Às vezes, depois do jantar, ele queria ficar conversando na calçada ou ir com ela à casa de um parente ou amigo, jogar conversa fora, e ela dizia que precisava limpar a cozinha, que ele esperasse um pouco. Ele esperava, mas, como ela arranjava sempre mais alguma coisa para limpar, algum recanto para varrer, ele acabava saindo sozinho. Com o tempo, fora deixando de convidá-la a sair, e desistindo de esperá-la na calçada. Ela sabia que nesse ponto tivera culpa. Se no começo lhe houvesse dado mais atenção, talvez as coisas fossem diferentes. Mas o que estava acontecendo com ela?! Resolvera confessar-se a si mesma? Por que esse exame de consciência?! Ele fora o grande culpado pela deterioração do casamento.           

               Terminou de guardar o último prato. Fechou o fogão e foi para o quarto, vizinho ao quarto dele, com uma porta de correspondência entre os dois. Ouviu o famoso ronco, que nos primeiros tempos fora motivo de brincadeira entre os dois, mas que, depois, passou a ser motivo de desavença. Está bem, pensou. Vestiu a camisola, tomou um gole d’água da quartinha que conservava em cima da cômoda e sentou-se na rede. Rezou um Pai Nosso e uma Ave Maria – as demais orações, que não eram poucas, ela rezava durante o dia –, persignou-se e deitou-se. Cobriu o corpo. Em seguida, pôs um pano nos olhos – não conseguia dormir sem essa venda improvisada. Sentia-se cansada com a luta o dia. Logo adormeceu.           

              Às sete horas, uma das filhas estranhou não ver a mãe na cozinha, preparando o café. Empurrou a porta do quarto, e a viu na posição de costume, como se houvesse começado a dormir naquele instante. Balançou a rede e chamou-a:           

              - Mãe, acorde, já são sete horas!           

             Não houve resposta. A filha, então, puxou o pano dos olhos dela e passou-lhe a mão no rosto. Pela casa, ecoou um grito. Ela ostentava o frio e a rigidez da morte.



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