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   > No mundo da fantasia



Vicência Jaguaribe
      CRôNICAS

No mundo da fantasia

 Se tem na minha imaginação é porque existe. 

(Artur Magalhães Cavalcante Pereira, quando tinha sete ou oito anos.)               

          Sempre... desde que tenho notícia de mim mesma como gente... desde muito criança, gostei  de ler. Não, gostei diz pouco. Na infância, os livros constituíam, para mim, uma vida à parte. O único mundo onde me sentia à vontade. Também fui criança em uma época em que os apelos aos miúdos, como dizem os portugueses, eram muito poucos. Na cidadezinha onde eu morava, não havia cinema – quer dizer, de vez em quando aparecia alguém com uma máquina de projeção, que punha a cidade em festa – e ninguém ainda ouvira falar em televisão. Circo, aparecia uma vez perdida. Até rádio era uma engenhoca muito pouco comum. De modo que a leitura representava uma das poucas opções de lazer da meninada. De vez em quando me pergunto: Se eu fosse criança nos dias de hoje, seria também uma aficionada por leitura? Provavelmente, sim, porque a maioria de minhas amigas e também minha irmã não gostavam de ler, já naquele tempo. Então...           

          Mas esse parágrafo todinho que acabo de escrever é só um pretexto para falar de outra coisa. E, para ir em busca dessa outra coisa, faço-me uma interrogação: de que era mesmo que eu gostava naqueles livros que me enfeitaram a infância? Sem dúvida, da fantasia. Da fantasia pura e simples. Muito mais do que da aventura e do humor. O que me encantava na história da Cinderela, por exemplo? Não era o amor que a bela órfã despertara no jovem príncipe. Nem mesmo a compaixão por aquela menina que perdera pai e mãe e ficara sofrendo na mão da madrasta. O que mais me encantava era a dose de fantasia que recobria o ordinário da vida. As cenas que me fascinavam mesmo eram aquelas em que a abóbora se transformava em carruagem; os ratos, em pajens e em cocheiros; os andrajos da Cinderela se metamorfoseavam em belas vestimentas enfeitadas com as estrelas do céu, os peixinhos do mar e os pássaros da floresta. Era, em suma, a fantasia pela fantasia. O acontecer de algo que, para a maioria dos mortais, principalmente para os adultos, pertencia à categoria não do improvável, mas do impensável, do impossível.               

          Quando, depois de muitos anos, dediquei-me ao ensino da Literatura Infanto-Juvenil, analisando os livros escritos para as crianças, com o olhar crítico do pesquisador, percebi que os autores desse tipo de livro dividem-se em dois grandes grupos: aqueles que valorizam a fantasia e trabalham com ela como se fosse o lado real ou palpável da vida, e aqueles que trabalham a fantasia como um mecanismo que opõem ao real somente para valorizar o segundo. Para esse tipo de escritor, a fantasia é um ingrediente do mundo infantil que deve ser exorcizado, que deve ser desacreditado, porque a criança precisa encarar a realidade o mais cedo possível. A fantasia, então, é relegada ao nível do sonho – sonho entendido como mecanismo do sono. Daí nascem aquelas histórias infantis cujo maravilhoso desaparece quando a criança acorda; um maravilhoso que não é nada mais do que o fruto de um delírio, de uma ilusão, de um devaneio da personagem infantil.           

           Os escritores do primeiro grupo, não, eles endossam a fantasia da criança, deixando, no final da narrativa, a certeza (ou pelo menos a dúvida) de que essa dimensão da vida humana existe e pode manifestar-se de uma hora para a outra. Digamos, em outras palavras, que esse tipo de escritor autoriza a fantasia infantil, colocando-a ao lado do real, somente ocupando uma dimensão diferente.           

          O melhor exemplo dessa técnica (vamos chamar assim) narrativa é um livrinho da autoria de Ana Maria Machado, intitulado O menino Pedro e seu boi voador. Observem que não estou falando propriamente do maravilhoso nos moldes tradicionais, em que tudo acontece em um mundo paralelo, e nada nos leva a pensar em um confronto entre o real e o imaginário. Não, não é isso. Nesse tipo de obra de que falo, há uma ambientação na realidade, que depois cede lugar à fantasia, que se instaura, desbancando a realidade. Parece-me que esse tipo de narrativa se aproxima mais do fantástico do que do maravilhoso tradicional.           

          Em O menino Pedro e seu boi voador, a história transcorre em um ambiente mais do que ordinário. Pedro é uma criança de classe média, que tem pai, mãe e irmãos. Um dia, ele chega do colégio e diz à mãe que ganhou um colega novo – um boi voador. A mãe e o pai argumentam com a criança, tentando uma racionalização daquela sua história: o que ele chama de boi voador deve ser um enfeite, igual ao que se encontra na casa da tia Guguta: Aquele boi não é voador, está pendurado só para enfeitar. É uma cópia da fantasia que os homens usam para dançar nas festas do Bumba-meu-Boi.           

          A irmã manda que ele invente outra história mais interessante, e o Pedro retruca com raiva: Não estou inventando porcaria nenhuma. É verdade verdadeiríssima. O irmão Rodrigo também não vai na conversa do menino:                        

          Rodrigo, como era um irmão mais velho muito paciente, foi explicando:        

          - Pedro, boi não voa. O que voa é super-homem, o ultraman, foguete interplanetário, aqueles homens-pipas que pulam na praia... Até o homem-aranha precisa de teia, até o Batman precisa de batcorda. Esse teu colega deve ser um truque desses. Ou então é pó de pirlimpimpim, que nem nas histórias de Monteiro Lobato ou Peter Pan. Mas voar? Não pode ser, meu irmão. É impossível.                       

          - Mas ele voa, Rodrigo. Voa que eu já vi.                       

         - Para cima de mim com essa conversa? Nem vem que não tem...            

         Mas, apesar das objeções e das gozações da família, Pedro continua afirmando que seu novo colega é um boi voador. A essas alturas, o leitor talvez até estivesse convencido de que, no final, a fantasia iria para as cucuias. Nada disso. E o desfecho da história é uma lição de como escrever história para criança. Era domingo, e a família estava à mesa para o almoço. Pedro levantou-se e foi buscar um prato para o amigo – ele avisara à mãe que o Boi Voador iria almoçar com eles. Quando o almoço é servido, o menino vai colocando comida no prato do amigo. Levanta-se e, pouco ligando para a gozação da família, vai à janela e grita: Boi Voador! Boi Voador! Vem logo, que a comida vai esfriar.           

          E a autora faz uma bela descrição da entrada do Boi Voador na sala:           

          E então ele entrou, leve e lindo, brilhando e reluzindo. Um maravilhoso Boi Voador, Boi-Bumbá, em todo seu esplendor. Negro como a noite mais profunda e cheio de estrelas, flores e brilhos de beleza. E enquanto ele voava, as franjas coloridas de seu manto dançavam com o vento. E tudo em volta aparecia nele por um momento. E os espelhinhos de sua garupa estrelada faziam uma festa de gala, refletiam cada pessoa e cada coisa da sala. E cada um, brotando no brilho antigo, voava uma voltinha com o boi manso e amigo. E os adultos tiveram que aceitar como realidade a fantasia do menino Pedro: Ficaram todos tão embevecidos com o boi voador que nem notaram que de repente toda aquela beleza virou surpresa.

          É, tiveram que aceitar, porque contra fatos não há argumentos.

          O mesmo caminho da aceitação da fantasia infantil trilhou Rachel de Queiroz em O menino mágico. Um belo dia, Daniel foi dormir em um quarto e acordou em outro. Pronto, foi aí que o menino descobriu que era mágico, pois aquela mudança misteriosa só podia ser arte de mágica. Durante toda a narrativa, o menino, acompanhado do primo Jorge, o lado pragmático da existência (algo como D. Quixote e Sancho Pança), opera pequenos milagres ou pequenas mágicas: apertou um ovo e, quando abriu a mão, viu um pinto (a cozinheira até pediu as contas, com medo do menino feiticeiro); transformou a cama em avião e saiu voando por entre as nuvens (foi até o Ceará e só não desceu do avião, porque demoraria muito e os pais podiam achar ruim e acabar com todas as mágicas); provocou uma ventania; transformou a água do mar em coca-cola; consertou o motor do carro de uma moça, em troca de uma carona, só com a imposição da mão sobre o que achava que devia ser o carburador; e fez mais um monte de mágica. Até que, no desfecho da história, quando a leitor imagina que o menino vai ser desmascarado, eis que ele transforma, na frente de toda a família, um pedaço de papel enrolado em um charuto para o avô.            

          E aí todo o mundo viu, espantado, que o avô tinha na boca um charuto de verdade, bem aceso e fumegando que era ver uma locomotiva velha!           

          Rompeu tudo a bater palmas, e até os dois pais faziam cara de riso.            

          Então Daniel e Jorge se puseram um ao lado do outro, botaram a mão no peito e se curvaram agradecendo, que era mesmo ver um mágico e o seu secretário agradecendo ao público no picadeiro de um circo! A intenção de Rachel de Queiroz é a mesma de Ana Maria Machado: dar crédito à fantasia da criança e deixar que ela a desfrute, até que a própria natureza lhe diga ser hora de parar. Observe-se que tanto em um livro quanto no outro a fantasia infantil corre o risco de desaparecer, quando é confrontada com o mundo dos adultos, com seus dogmas e seu pragmatismo. É sempre o adulto que põe em risco o mundo mágico da criança. E isso também acontece na vida real. O adulto sempre reage ao encantamento infantil, com a indefectível ressalva: Mas isso não pode acontecer. É tudo fruto de sua imaginação. E são raras as crianças que têm coragem de contra-argumentar, como fez meu afilhado Artur, quando tinha, talvez, sete ou oito anos.

          O causo foi o seguinte: ele tinha que fazer uma pesquisa de Ciências, sobre a sombra. Então, perguntou à mãe:

          - Mãe, é verdade que quando a sombra da gente desaparece a gente morre.

          E a mãe, com o ranço de todo adulto, quis jogar um balde de água fria na cabeça do menino:

          - Que besteira é essa, Artur, não existe essa história de sombra desaparecer, não.

          - Existe, sim, devolveu o menino. Se tem na minha imaginação é porque existe.

          E aí, leitor, você já viu um argumento mais convincente na sua vida? Eu não. Nem mais convincente nem mais bonito.

          Como seria bom e saudável se os adultos deixassem as crianças desfrutar do mundo mágico criado pela imaginação delas. Elas vão ter tempo demais para sofrer o real. E a literatura existe é para isso mesmo – abrir as portas do maravilhoso e, depois, na hora certa, ajudar a entrar na realidade. 



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