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   > Motus continuus



Vicência Jaguaribe
      CONTOS

Motus continuus




(Vicência Jaguaribe)



        A velha Senhora se lembrava muito bem do que acontecera naqueles dias. Há quanto tempo? Dez anos? Trinta? Quarenta? Cinquenta? Ela nunca fora mesmo muito boa em contagem de tempo. Mas uma coisa ela recordava muito bem: o tio Elias, um irmão de sua mãe, vivia falando na genialidade do amigo. Era o Mestre Francisco pra cá. Era o Mestre Francisco pra lá. Porque o velho Mestre Francisco era um inventor de primeira! O problema: este era um país que não dava valor aos seus gênios. Não incentivava suas cabeças privilegiadas.
        O Mestre Francisco - o mestre era por conta do tio da velha Senhora, o tio Elias - morava em uma casa velha, já em avançado processo de deterioração. Vivia com duas filhas, já bem entradas na meia idade, e uma neta, órfã de mãe. Todo dia, o tio visitava o amigo, para inteirar-se das novidades do rádio - o mestre gostava de atualizar-se - e das suas mais recentes invenções. Em casa, quando expunha a genialidade da vez, a família olhava-o com desdém e, via de regra, soltava uma piadinha sobre o mestre e seus hábitos de higiene: Mestre! Só se for mestre de sujeira!
        A casa do mestre Francisco não era, realmente, nenhum modelo de higiene e de arrumação. Viam-se animais circulando pelos aposentos; retalhos de pano voando ao sabor do vento, que uma das filhas costurava; cortinas de casas de aranha enfeitando as paredes ou pendendo do teto, o que dava ao ambiente uma atmosfera lúgubre de filme de terror.
        Sim, havia um quintal na casa do mestre Francisco e, no quintal, um quarto e, dentro do quarto, o mistério. O mestre não abria a porta daquele quarto para muitas pessoas. Somente alguns privilegiados tinham o consentimento de lá penetrar. E o tio Elias era um desses poucos. De vez em quando, entrava no quarto do mistério e ficava um tempão lá dentro, observando a quinquilharia de que se servia o mestre para criar suas invenções.
        Ultimamente, o tio Elias mostrava-se mais entusiasmado do que nunca. Sentia-se o orgulho borbulhar em seu corpo, quando falava no mestre Francisco. A exaltação estava quase a afogá-lo, e ele precisava falar. Aproveitou um dia em que almoçavam só ele e a mãe:
        - Mamãe, a nova invenção do mestre Francisco vai revolucionar o mundo. Ele está criando um moto contínuo.
        - E eu sei lá o que é um moto contínuo!
       - Ah! mamãe, é a revolução das revoluções: é uma máquina que funciona indefinidamente sem despender energia, ou que transforma em trabalho a energia recebida.
      - Bom, entender mesmo eu não entendi não. Mas quero dizer três coisinhas: primeiro, tudo o que tem começo tem fim; segundo, se o seu Francisco tá mexendo com isso, é porque já existe alguma coisa sobre isso; ele não ia saber inventar um negócio desses, não; terceiro, se ninguém ainda fez esse tal de motor contínuo não vai ser aquele velho sujo que vai inventar isso.
        O tio ficou calado, porque com aquela velha não se discutia. À tardinha, foi novamente à casa do amigo, mas não pôde falar-lhe. Ele trancara-se no quartinho do fundo do quintal, de onde se ouviam constantes pancadas e, de vez em quando, o ronco de um motor. A comida era levada pelas filhas, que a deixavam na soleira da porta. Elas disseram que o pai não conversava mais com ninguém. Falava sozinho sobre um tal de motor que começara a construir, mas que não estava saindo como ele queria. O tio Elias desceu ao quintal, bateu na porta do quartinho e esperou resposta. Em vez de falar, o velho botou a cabeça para fora. Olhou-o, mas não deu nenhuma reposta às suas perguntas. Nada. O velho fechara-se em copas.
        Pela manhã, quando pisou na calçada, o tio Elias ouviu o boato: o velho Francisco ateara fogo no quartinho dos fundos, onde guardava suas invenções. E desaparecera. Seu corpo não foi achado em meio aos ferros retorcidos e ninguém o viu sair de casa. O fato é que ninguém nunca mais deu notícia. do mestre Francisco, nem naquela cidadezinha nem nas cidades vizinhas. As filhas morreram; anos depois, o amigo se foi também. Algumas outras gerações também cumpriram a sua missão neste mundo e fizeram sua viagem. Nenhuma dessas pessoas viu, antes de morrer, alguém construir aquela máquina maravilhosa - aquela máquina que funcionaria sem parar. Mas quem sabe não foi em uma dessas máquinas, pelo menos em um protótipo delas, que o mestre Francisco fez sua viagem definitiva? Isso ninguém pode afirmar, porque ninguém viu. Mas também não pode negar. Não pode negar pelo mesmo motivo por que não pode afirmar: ninguém viu. E não se pode negar nem afirmar aquilo que não se viu. É isso o que pensa a velha Senhora, quando se lembra daquele episódio, ou quando algum jovem lhe pede para contá-lo.


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