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   > Ai de nós, ai de nós!



Vicência Jaguaribe
      CRôNICAS

Ai de nós, ai de nós!

 
[o escrete] é a pátria em calções e chuteiras,
a dar rútilas botinadas, em todas as direções.
O escrete representa os nossos defeitos
e as nossas virtudes.
       Em suma: - o escrete chuta por
100 milhões de brasileiros.
E cada gol do escrete é feito por todos nós.
(Nélson Rodrigues)
 
 
 
 
             Bombas continuam a pipocar, às vezes, mais perto, às vezes, mais longe. Não sei de onde elas partem, nem sei por que motivo estão sendo disparadas. São cinco e meia  da tarde do dia dois de julho de dois mil e dez, data em que o Brasil perdeu a partida das quartas de final para a Holanda, tendo, portanto, que voltar para casa mais cedo.
            Certa melancolia paira no ar da tarde quase noite. Cada brasileiro que acompanha a Copa do Mundo e se empolga vendo a seleção brasileira jogar está a estas horas lamentando a derrota, principalmente pelas circunstâncias em que se deu. O Brasil entrou em campo com uma disposição de campeão. Fez um primeiro tempo belíssimo, com uma desenvoltura que nos fez lembrar das grandes seleções dos tempos idos – a de 1970, por exemplo. Aos dez minutos, fez um gol daqueles de mestre, com a bola passada para Robinho por Felipe Melo. O mesmo Felipe Melo, que depois atrapalhou a defesa do goleiro Júlio César, fazendo um gol contra – o trágico gol do empate – e, pior, foi expulso de campo. Aí, tudo que já estava dando errado ficou pior. Resultado: 2 a 1 para a Holanda. E a Laranja Mecânica nem estava com esse gás todo.
            Por isso me pergunto quem estará soltando bomba a esta altura do campeonato. E por que quem está soltando bomba está a fazer isso. Sei, de ouvir dizer, que alguns brasileiros desnaturados torcem, desde o início da Copa, pela Argentina de Diego Maradona. Torcem pelo adversário maior do Brasil, somente porque não queriam o Dunga como técnico da seleção, porque o Dunga não convocou o Ronaldinho Gaúcho e outros jogadores que não sei nem quais são. E, como em toda derrota deve aparecer um bode expiatório, vamos ouvir, por muito tempo ainda, as maldições contra o Dunga, a execração do Felipe Melo, as palavras desrespeitosas contra o Kaká – que, realmente, não mostrou a que foi, na África do Sul. Serão essas as reações, como se as coisas se explicassem tão ingenuamente.
            Onde está o entusiasmo e o patriotismo demonstrados nas arquibancadas, quando a seleção brasileira entrava em campo e quando se perfilava para cantar o Hino Nacional? Ser patriota no momento da vitória é muito fácil. Mais fácil ainda é apontar culpados individuais, quando a culpa está sempre montada em uma conjuntura.
            É hora de reler algumas crônicas de futebol escritas pelo grande Nélson Rodrigues e fazer, a partir delas, um exame de consciência. Em A Pátria em chuteiras, crônica de 1976, o autor pergunta o que é o escrete, para nós, brasileiros, e nos dá uma resposta antológica:
 
[o escrete] é a pátria em calções e chuteiras, a dar rútilas botinadas, em todas as direções. O escrete representa os nossos defeitos e as nossas virtudes.
       Em suma: - o escrete chuta por 100 milhões de brasileiros (e agora eu pergunto – quantos somos hoje?). E cada gol do escrete é feito por todos nós.
 
            Em outra crônica, esta de 1966, O escrete precisa de amor, ele fala na relação que deve haver entre jogadores e torcedores – uma relação de amor: Eis a verdade inapelável e eterna: - só o grande amor faz o grande escrete. [...] O escrete quer sentir também a nossa admiração. Mas não foi esse o sentimento que se viu demonstrado pela seleção que acaba de perder para a Holanda. E o cronista continua, analisando a postura do povo brasileiro em relação à disposição de elogiar e de insultar:
 
Não sabemos admirar, não gostamos de admirar. Ou por outra: - só admiramos num terreno baldio e na presença apenas de uma cabra vadia. Ai de nós, ai de nós! Somos o povo que berra o insulto e sussurra o elogio.
 
            É o retrato perfeito do brasileiro – o brasileiro, minha gente, não é o homem triste, como queria Paulo Prado: Numa terra radiosa vive um povo triste. Muito menos o homem cordial, de Sérgio Buarque de Holanda. É, antes, o povo que berra o insulto e sussurra o elogio. Por isso não deveria admirar-me ao ouvir as bombas nesta tarde-noite de sexta feira – 02/07/2010 –, nem me perguntar por que e por quem elas pipocam. Elas devem pipocar pela derrota do Brasil para a Holanda e pelos meninos do Maradona. Ai de nós, ai de nós!
 
02/07/2010



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