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   > A GUERRA DE HALA



Airo Zamoner
      CONTOS

A GUERRA DE HALA

Escondida pelos cantos da casa, Hala tentava ouvir os adultos. Falavam da catástrofe que se abateria em breve sobre todos. Ouvia e perdia a doçura inata, querendo saber mais sobre o ocidente do mundo.

Nos seus parcos sete anos de vida, já assistira ao terror das bombas. Vira incêndios devastadores. Encolhera-se trêmula, horas a fio, esperando silenciar o zumbido fino, anunciando explosões de morte.

A pequena Hala está com febre. Ninguém sabe os motivos. Há preocupações maiores. Ela perdeu o interesse nas bonecas. Esconde comida no porão escuro. Sua mãe confrange o coração magoado, ao sentir os olhos da criança perderem o brilho comovente da infância, um pouco mais a cada dia.

A sala se enche de gente ao cair da noite. Hala escapa de seu quarto e se esgueira pelas frestas. Quer viver as conversas terríveis. Falam da terra distante, de homens infernais e sua ganância diabólica. Falam de ditaduras e de liberdade. De guerras e terror, cá dentro e lá fora. Falam dos demônios do ocidente e dos diabos do oriente. E tantas outras coisas incompreensíveis.

Hala sente o corpo inflado. Range os dentes ao ver o sofrimento aflorar na expressão envelhecida do pai e no sorriso amargo da mãe. Algo desconhecido parece crescer dentro dela, ocupando todos os espaços. O coração a pulsar como tambores a vibrar o estômago, como nos desfiles militares. A respiração a se acelerar descontrolada. Os olhos a se avantajarem, secando lágrimas perdidas. Uma vontade enlouquecida de se tornar poderosa e grande. Um impulso irresistível de interferir nas forças que, impiedosas, sangram o coração da mãe, tiram os carinhos do pai e secam o choro silencioso dos velhos. Não consegue identificar o sentimento estrangeiro e bruto que ocupa, avassalador, todos as lacunas de seu mundo e ao mesmo tempo expulsa de seu peito todos os outros que antes eram tão doces, tão suaves.

Imagens terríveis se formam na alma de Hala. Vê-se dilacerando corpos e vidas, almas e infernos. Vê-se despejando fogo pelos olhos, atingindo todos os males do mundo. Descobre que tudo o que sente é, na verdade, ódio febril a invadir os espaços inocentes de sua infância a morrer cada dia, mergulhada nas angústias prematuras da morte por assassinato iminente.

Os murmúrios, lá na sala, vão se apagando e Hala adormece em sonhos.

Subitamente, adentra deseducada na conversa sigilosa dos adultos apavorados. Fala de suas façanhas grandiloquentes. Grita que agora o pai poderá irradiar novamente alegria no rosto. A mãe poderá sorrir o sorriso largo da alegria. Alardeia que o ocidente foi queimado pelo fogo de sua alma que espirrou pelos olhos e atingiu com a morte todos os perigos. Descontrolada, avisa aos berros que a força nascida dentro de seu ódio, extinguiu o satanás sanguinário opressor de seu povo e aniquilou o belzebu ameaçador das terras distantes.

O silêncio é puro dentro de casa. A madrugada se avizinha. A mãe de Hala a encontra caída no corredor adormecida. Arde em febre. Lá fora, a destruição avança. Em breve, muito breve, Hala não terá mais febre.


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