Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (641)  
  Contos (942)  
  Crônicas (724)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (217)  
  Pensamentos (651)  
  Poesias (2531)  
  Resenhas (131)  

 
 
Estátuas-01-157
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)



Paisagens-01-012
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)






   > O QUE HÁ ALÉM DO FOSSO?



Airo Zamoner
      CRôNICAS

O QUE HÁ ALÉM DO FOSSO?

Existem segredos inexpugnáveis a proteger os palácios. Houve um momento histórico em que se conseguiu espiar alguma coisa aqui de fora. Muito pouco e por um átimo de tempo. Foi quando o menino inocente denunciou aos gritos que o gordo rei estava nu. Verdade dolorida que escandalizou o mundo e foi rapidamente empurrada masmorras abaixo, para que o povo voltasse a ser feliz e não ousasse mais se aproximar das verdades tão bem ocultas.
Outro momento importante, foi quando o poderoso rei esforçou-se para dar pão e circo ao povo, mas foi desmascarado séculos depois, descobrindo-se que ele queria mesmo era manter esse povo impertinente, longe de seus doces mistérios.
Vinte séculos, ou vinte vezes vinte, e os arcanos do poder continuam muito bem guardados aqui pertinho de nós, nos palácios modernos que ajudamos a construir e manter com nossa contribuição compulsória, entregue com nossas calejadas mãos, molhadas com suor de lágrimas.
Há um fosso imenso a separar povo e palácio, palácio e povo. Vencer esse lamacento abismo onde habitam monstros famintos e a magia negra bóia ameaçadora, é o desejo absoluto dos mortais, cada vez mais mortais. Para atravessá-lo, buscamos educação, filosofia, estudo, cidadania, consciência política, democracia.
Santa e adorada democracia que se perdeu na ignorância forçada do povo sedento! Ela exige como pré-requisito do seu praticante, a capacidade de desvendar mistérios, descobrir segredos. Sem isso, é uma ferramenta a serviço dos espertalhões de plantão. De que vale ofertar a democracia com a mão esquerda e com a direita, os além-fosso, solaparem com todas as forças o direito ao conhecimento. Quem é tão ingênuo para acreditar que os poderosos, sentados em seus tronos e contas bancárias, desejam sua prática? O conhecimento, escada para a democracia verdadeira, é ofertado em doses homeopáticas apenas como calmante, ou quiçá, sonífero para rebeliões incômodas.
As doses verdadeiramente eficientes de conhecimento têm custos inatingíveis. Para enfrentar esses custos, busque a riqueza que está do lado de lá, dizem eles a boca pequena. Mas e a riqueza? Ora essa! Para conseguir a riqueza, busque o conhecimento, plebeu imbecil!
Nenhum estudo sociológico deixa de detectar a nítida divisão da sociedade em pelo menos dois grupos: eles, os donos dos enigmas ocultos e nós, suas inúteis vítimas úteis.
Para complicar ainda mais o desvendar dos mistérios, no grupo de cá existem outras duas divisões. Os que estão doidos para descobrir o que há além do fosso, e os que nem de longe desconfiam que existe o próprio fosso!
O jovem aspirante a sociólogo, nas suas lides acadêmicas profundas, pensou que a mazela principal da tripulação passageira deste planeta em rota de colisão certeira sobre algum buraco negro qualquer, desaparecerá com o decifrar e, decifrando exporá à execração pública os que moram além-fosso. Secará o fosso. Desmantelar-se-á cada palácio. Dar-se-á, enfim, o conhecimento ao povo e, por conseqüência, chegará a sonhada democracia. Ledo e juvenil engano. Sou obrigado a desencantá-lo. Estes segredos contêm um componente de terror sociológico. Um componente de magia negra, ao qual nem mesmo bruxos e bruxas profissionais ficam imunes. Todo aquele que desvendar um segredo, um único que seja, e ousar revelá-lo, será contaminado de forma indelével e compelido por um desejo interior absoluto a atravessar o fosso e a abandonar seus pares, para todo o sempre.
A notícia não é boa, eu tive que revelar ao meu jovem futuro filósofo. Você, como eu e tantos outros, já desvendamos esses segredos, sabemos muito bem. Entretanto, não podemos revelá-los abertamente, se não quisermos bandear inapelavelmente para o lado de lá.

Airo Zamoner é escritor
airo@protexto.com.br


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui