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   > Natura



Carolina Holanda
      CRôNICAS

Natura

Eu vi um homem. Foi na plataforma de uma estação de trem. O homem no chão, com as patas dianteiras amarradas para trás. Em torno dele, muitos outros homens. Alguns tinham as peles iguais: mesma cor, mesma estampa, mesmas presas. Homens da mesma espécie, que acabavam de capturar um outro homem.

O motivo me foge. Não o sei, não o vi. Só vi o homem, cercado por outros homens. E o homem parecia uma besta-fera. Debatia-se, voltando muito a cabeça para a esquerda, depois para a direita, freneticamente. Os ombros se moviam no mesmo ritmo. As mãos, atadas. Presas para trás de seu corpo.

Eu vi o homem. E vi o dentro do homem e o antes do homem. Não chorei: não houve susto ou temor. Houve a admiração surda e muda, porque vendo o homem eu vi o homem em mim. Eu soube (ou me lembrei?) que também eu sou um homem, que se amarrado com as mãos para trás deixa exposta sua natureza de besta-fera. Também eu sou um homem, que, se ameaçado, ataca, fere e deixa-se ferir, sente medo e amedronta, bicho que é. Animal. Também eu sou selvagem.

Tive a impressão de que se pusesse uma tigela cheia de ração escura à sua frente, o homem curvaria o tronco com dificuldade (pois as mãos ainda estariam presas para trás de seu corpo) e devoraria tudo, limpando vorazmente, com a língua, o que entornasse no chão. Se alguém tentasse lhe tirar a tigela antes que estivesse satisfeito, ele atacaria. Sim, ele atacaria, porque o único prazer de um bicho é aquilo que lhe dê sustento. Um bicho não sabe esperar, não sabe reter, não sabe pedir. O que ele tem é o momento, e, então, devora-o. Sua força motriz é sua fome. É isso que o bicho faz: ele come.

Estaria o homem com as mãos presas por ter comido na hora errada? Por ter comido o prato que não era seu? Mas como julgar a fome alheia? Como saber quem comete o maior erro: aquele que cobiça o prato do outro, ou o outro que não cede seu prato àquele, mesmo não sofrendo de fome, mesmo sabendo que nunca lhe faltará um prato na hora certa?

É estranho, eu sei. Foi estranho para mim. E penso, reticente ainda, "o que vi eu"? Eu vi um homem e, então, vi o Homem? Eu vi num homem o reflexo de todos os homens? Acho, ainda, que hoje, há alguns minutos atrás, eu vi, eu conheci e reconheci a nossa Natureza, e eu precisava te contar isto: eu vi o lobo do homem, que despertou o lobo de mim, e eu soube - não sei por quanto tempo ainda saberei - eu soube que podemos nos devorar mutuamente. Eu vi a matéria bruta e imunda, igual a tua, que se contorce cá dentro de mim.

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