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   > Uma história de boto



Gutyerrez Oliveira Monteiro
      CONTOS

Uma história de boto

 
                   Uma história de boto 
 
                                                                                      G. Monteiro
Madrugada de todos os dias a mesma hora. Ouve-se um barulho de água que  sobe  do rio  escorrendo por cima da argila lisa ,  no caminho que vem   do porto das canoas, na margem do  Paraná de águas barrentas. Passos pesados de homem  andando   na parca luz entre a noite e o principio da madrugada. A  silhueta forte agora vai ficando   mais perto , o cheiro,  o  pitiú   de bicho no cio se espalha no ar. O homem na tocai  em cima da arvore próximo ao barracão  é  paralisado  imediatamente  de arma na mão apenas por um olhar do recém chegado  . O boto  entra na casa empurrando a porta que range, sem se incomodar com o barulho, mostrando que não tem medo de nada. Dois homens de tocaia     dentro da casa, um atrás da porta outro deitado no chão apontando a espingarda para a porta,  ficam como  congelados,petrificados. O marido choroso, na  outra rede próximo a mulher parece ficar totalmente paralisado,  o jeito é   assistir tudo, com somente  os olhos arregalados que se movem nas orbitas querendo gritar  algo engasgado que não  pode sair.
Na rede, sentindo a aproximação do boto, aquela mulher  deixa  mostrar toda a sua ânsia pela chegada do encantado  e o  seu corpo  moreno ainda cheio de juventude,demonstra que estava esperando  o esperado  para o prazer misterioso. O cheiro animalesco do macho  enche o ar,  a mulher e o boto tem  como espectadores, todos da casa que estão acordados naquela hora   esperando –o  para mata-lo.   Como um animal bestial  que ele é,   possui a mulher e, ela se entrega  encantada e envolvida pelo  cheiro e o corpo molhado  do boto . Até  desfalecer total  ficando quedada e saciada como a presa que quis ser predada . Agora ele se levanta de perto dela e se dirige outra vez para o rio de onde veio e ouve-se por último o barulho de água espalhada e o seu banzeiro  que lava outra vez a argila  do rio, um suspiro forte como um  escape de ar é ouvido na madrugada  . Então,  como um sinal  sobrenatural, faz voltar quase automaticamente  do degelo os homens que estavam paralisados. Que ao voltar a si,  tentam  ainda reagir na perseguição, mas  outra vez,é  tarde demais.  O boto já escapou como um encanto , apenas um pequeno banzeiro nas aguas se misturam com o marejo do rio . Na rede, a mulher  ainda está  desfalecida  parece lânguida  e preguiçosa na espera da próxima madrugada do outro dia .
                                                 
 
 
 


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