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   > Mudança de hábito



Maurício Cintrão
      CRôNICAS

Mudança de hábito

Parei de fumar há exatos três anos. E o desgraçado do cigarro ainda faz falta. Não importa se melhoraram meus perfumes, paladares e fôlegos. Tem horas em que me pego flertando com a idéia de voltar a fumar.

 

Sei de todos os riscos e o Ministério da Saúde vive alertando. Alguns alertas, aliás, são tão grosseiros que dão vontade de voltar a fumar, só pelo desaforo. Mas essa não é a questão agora.

 

O vício é tão forte que ainda serve de enredo para sonhos em que estou fumando às baforadas, feliz e zombeteiro. O prazer é indescritível, a culpa também. Tanto que já acordei derrotado pela lembrança da volta ao fumo. Quando percebi que era sonho, fiquei feliz da vida, mas passei o dia com o superego martelando: “Não falei? Não falei? Você é um fraco”.

 

Para quem não fumou, é difícil entender. Parar de fumar é um verdadeiro exercício de reconstrução pessoal. Dessa forma, sonhar que estava fumando é tão complexo quanto um sonho erótico com a ex-mulher (ou o ex-marido).

 

Pera, calma, é apenas uma alegoria. Em matéria de sonho com “ex” basta o cigarro para alimentar culpas. 

 

De mais a mais, parei de fumar pela primeira vez agora, há três anos. Mas já estou no terceiro casamento. Já imaginou se resolvo inaugurar um memorial de imagens eróticas com ex-parceiras? Ou morro duro e seco, ou tenho que encontrar outro lugar para morar. Tudo à terceira potência.

 

Destaque-se que minha atual mulher (e espero que definitiva) tem 1,85 de altura e é forte. É muito forte. É muito mais do que forte (e é bem mais nova do que eu).

 

Bom, passado o momento “flash back mata”, volto ao assunto principal. Essa fixação pelo cigarro se apoia em boa explicação. Fumei por mais de 30 anos. Recentemente, fumava 4 maços do indefectível Continental, um estoura-peito que rivalizava com o Petit Londrinos, o Luiz XV sem filtro e o multinacional Gauloises.

 

Assim sendo, militei na geração que foi bombardeada pela indústria do cigarro. Fumei com atores e atrizes do cinema e da TV, com atletas rebeldes, em shows nas boates, nos palcos esfumaçados e dentro de casa. Meu avô fumava. Meu pai fumava. Meu tios fumavam.

 

Fumar dava prestígio entre as meninas, era gesto-senha-de-acesso em determinados grupos e emprestava um perfume de suposta masculinidade às vítimas do tabaco.

 

Por isso, meus amigos, sonhar que fumava é até natural. Por isso, dêem um desconto. Logo eu supero e escrevo às gargalhadas sobre as lembranças do fumo.

 

Já em relação ao exemplo infeliz dos sonhos eróticos, bom, aí eu acho que arranjei uma bela complicação. Porque eu não tenho sonhos saudosistas. Mas vai saber o que eu falo durante a noite?! E se eu falar o nome de uma ex?

 

Melhor mudar de hábitos, tipo não falar enquanto sonho. Ou lembrar os sonhos por medida defensiva. Ou não sonhar, o que é bem mais seguro. Não volto aos cigarros e não corro risco de vida. Mas quem é que consegue bloquear os sonhos?

 

Acho melhor acender um cigarrinho.

  

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